Algodão ecológico não é resposta, nem o tratamento de água
nas lavanderias de jeans. O desafio de buscar materiais e processos menos
impactantes ao ambiente é comum a todas as indústrias de bens de consumo. Portanto, quando a pergunta é sobre
sustentabilidade na moda, o buraco é mais embaixo.
Enquanto muitos estilistas se esquivam das pergunta sobre a
sazonalidade da moda, ou seja, coleções se renovando a cada estação, a
professora de Moda do Senai de Cianorte (PR) Leny Pereira encara a encrenca. “A
sustentabilidade impõe à moda não só novos desafios, mas sim um novo papel”, diz.
A moda precisa se
voltar à sua função essencial e parar de ser apenas a renovação dos
guarda-roupas a cada estação. Hoje, critica Leny, as pessoas vestem conceitos
que não são seus e que parecem adequados por pouco tempo. “É como se trocassem
de personalidade a cada seis meses”, constata. Por outro lado, quando se
considera mais o gosto pessoal na composição de um estilo, aumenta-se a vida útil do produto: mais autêntico,
ele não é trocado tão facilmente.
Leny Pereira acredita que mudar o papel de “criadora de
tendências” para “criadora de estilos” significa diminuir o ritmo de produção e
acalmar o consumo. Apesar de parecer
algo longe do real e de interesses conflitantes, essa mudança pode simplesmente
corresponder à lógica já vigente no mercado da moda: estar o mais próximo
possível da identidade do consumidor.
“Verde” no figurino
“A grande parte das pessoas só leva em consideração o preço,
seja por economia ou por status. Felizmente, já existe uma fatia do mercado que
tem a preocupação ambiental”. Com essa análise, Leny aposta que as decisões de
consumo mais conscientes, que envolvem menor impacto ambiental e social, devem
provocar mudanças definitivas na
indústria da moda.
Ela cita o exemplo da cidade onde atua: na paranaense
Cianorte, considerada a capital do vestuário, existem mais de 500 confecções. E
estas exigem garantias mínimas dos fornecedores. Um exemplo são as lavanderias
de jeans, das quais se requer tratamento de água e cuidados com a saúde dos
trabalhadores.
A adoção cada vez maior das roupas funcionais é um dos grandes caminhos para a moda, acredita a
estilista. “Como ficamos cada vez mais tempo fora de casa, as roupas funcionais
se tornam práticas e econômicas.” E afinal, o que são roupas funcionais?
Aquelas que se multiplicam: vestidos que viram blusas, bermudas que viram
calças e o que mais a imaginação permitir.
“Há muito trabalho pela frente para os profissionais do
setor, que vão precisar de mais criatividade do que nunca”, conclui Leny,
garantindo que as montanhas de coleções em liquidações baratíssimas devem começar
a ser substituídas por confecções mais resistentes ao tempo e às lavagens.
Mas não basta que a roupa resista às estações: seu dono
também precisa passar longe das vitrines, queimas de estoque e outras
armadilhas. Afinal, quando o consumidor faz a sustentabilidade virar moda, a
moda também se rende aos princípios que
garantem sua perenidade.
Fonte: Super Interessante
