quarta-feira, 3 de abril de 2013

Reúso de água e seus benefícios para a indústria e meio ambiente


por Carla Legner

Reúso é o processo de utilização da água por mais de uma vez, tratada ou não, para o mesmo ou outro fim. Essa reutilização pode ser decorrente de ações planejadas ou não. A água de reúso tratada é produzida dentro das estações de tratamento e pode ser utilizada para inúmeros fins, como geração de energia, refrigeração de equipamentos, em diversos processos industriais, em prefeituras e entidades que usam a água para lavagem de ruas e pátios, no setor hoteleiro, irrigação/rega de áreas verdes, desobstrução de rede de esgotos e águas pluviais e lavagem de veículos.

A escassez de água nos grandes centros urbanos e o aumento de custos para sua captação e posterior tratamento, devido ao aumento do grau de poluição das fontes de água, faz do reúso de água um tema de enorme importância nos dias atuais.

Vantagens

A grande vantagem da utilização da água de reúso é a de preservar água potável exclusivamente para atendimento de necessidades que exigem a sua potabilidade, como para o abastecimento humano. Entre outras vantagens estão a redução do volume de esgoto descartado e a redução dos custos com água, luz e esgoto.

A água já utilizada (água residuária) é coletada e encaminhada, por meio de tubulações, a uma central de tratamento. Depois de tratada e com seus parâmetros de qualidade ajustados à finalidade a que se destina, a água é encaminhada para o consumo de reúso. No caso dos efluentes domésticos, pode-se fazer o reúso do esgoto bruto e da chamada água cinza, que é a parte do esgoto que vem de chuveiros, lavatórios e lavagem de roupas, excluindo-se o que vem de vasos sanitários e de cozinhas.

Na maior parte dos casos de reúso em empreendimentos comerciais e residenciais, privilegia-se o reúso da água cinza, que é coletada em tubulações separadas das demais, que levam a água para o ponto onde fica instalado o sistema de tratamento. Em geral, a central de tratamento fica na parte baixa dos prédios e a água, após tratamento, é bombeada, de volta, para o abastecimento dos pontos de consumo de água não potável, como a descarga de vasos sanitários, rega de jardins e canteiros, lavagem de pisos e calçadas, reposição de água em sistemas de refrigeração, lavagem de veículos.

De acordo com Sibylle Korff Muller, engenheira da AcquaBrasilis Meio Ambiente, empresa especializada no tratamento de esgoto doméstico, o principal benefício do reúso de água é preservar os recursos hídricos do Planeta e permitir que a chamada água potável seja direcionada apenas para as finalidades mais nobres, como as de consumo humano e animal e as de contato direto com as pessoas.

“Tendo em vista os altos preços da água potável e, substituindo-se por água de reúso, os volumes de água geralmente usados em todos os fins em que a potabilidade não é necessária reduz-se o volume de consumo de água comprado das concessionárias de águas e esgotos e, garante-se ao empreendedor/usuário, uma enorme economia financeira pela redução de sua conta de água”, ressalta.

“Nas indústrias, por exemplo, ao mesmo tempo em que agrega uma dimensão econômica ao planejamento econômico dentro da sua política de gestão dos recursos hídricos, acrescenta também a boa prática ambientalmente correta, valorizando os seus produtos e marca junto aos seus consumidores”, explica Luiz Abrahão, engenheiro de tecnologias e processos da Veolia Water Brasil.

  
Tipos de reúso

O reúso de água pode ser indireto ou direto. O indireto ocorre quando a água, utilizada em alguma atividade humana, é descarregada no meio ambiente e novamente utilizada, em sua forma diluída.

O direto ocorre quando os efluentes, após serem tratados, são encaminhados diretamente de seu ponto de descarga até o local do reúso, não sendo descarregados no meio ambiente.
Sibylle explica ainda que existem basicamente os processos biológicos e os físico-químicos. A empresa dá preferência aos processos biológicos por serem eficientes e não produzirem lodos químicos, como acaba acontecendo com os processos físico-químicos, que se caracterizam pela decantação dos poluentes mediante adição de produtos químicos.

Os processos biológicos são geralmente baseados em decantação e degradação biológica da matéria orgânica existente no efluente, a sua maior carga poluente. Utilizam-se, para isto os microorganismos do próprio efluente que com introdução de ar, acabam por realizar o trabalho de tratamento da água. “Ao final do processo, após a chamada clarificação da água, na maioria das vezes por decantação, é necessária, ainda, a desinfecção do efluente, a qual pode ser feita com cloro, uv ou outro processo, desde que se deixe um valor residual de cloro no tanque de armazenamento da água de reúso”, completa Sibylle.

Atualmente, com mais de 45 sistemas de reúso de águas cinza em operação espalhados pelo Brasil, a AcquaBrasilis já mostrou aos empreendedores de que o reúso de água é uma realidade possível, que os sistemas são confiáveis, têm boa tecnologia, assistência técnica eficaz, com baixa manutenção, simples e fácil operação, baixo consumo de energia e trazem uma boa economia na conta de água e, ainda, melhoram a sua imagem frente aos seus clientes e investidores.

“É um mercado em ascensão. No entanto, deve-se sempre visar o atendimento de parâmetros mínimos de qualidade da água de reúso resultante do processo escolhido. Daí, a enorme importância de bons projetos e da aplicação de processos confiáveis, bem como, de uma operação bem automatizada que já possa eliminar eventuais falhas humanas”, finaliza a engenheira.

A empresa Veolia Water Brasil possui a linha completa de equipamentos e sistemas para o tratamento de águas visando reúso. “Na realidade, não há simplesmente uma única tecnologia capaz de garantir a qualidade de água para o reúso, mas sim a combinação de sistemas e equipamentos, tais como clarificação, filtração, membranas, carvão ativado, ultravioleta, etc. É claro que a associação dessas tecnologias dependerá de alguns critérios importantes: capacidade da planta, tipo e concentração dos contaminantes presentes na água a tratar, finalidade da água de reúso, área e custos de implantação da planta de tratamento”, explica o engenheiro.

Para etapas de clarificação, a Veolia possui o Actiflo™ e o Multiflo™ que são processos físico-químicos de alta-taxas e de grande eficiência na remoção de material em suspensão e certos compostos orgânicos e inorgânicos. Na área de filtração, pode-se contar com o equipamento Discfilter/Drumfilter, filtros abertos ou fechados com diversos materiais filtrantes, membranas de micro, ultra e nano-filtração além de sistema de osmose reversa e eletrodiálise inversa para a remoção da salinidade dos efluentes a tratar.

O futuro e o presente do reúso de água


De acordo com Luiz, o mercado de reúso de água vem duplicando o seu volume de tratamento em média a cada cinco anos. “A Veolia está presente nesse mercado com muitas referências espalhadas pelos diversos continentes e já soma mais de três milhões de m3 por dia em plantas de tratamento visando reúso de água. Por isso, é um dos focos principais de atuação no mercado brasileiro nas áreas municipal e industrial”, completa.

Fernando Barros Pereira, engenheiro civil e gerente comercial da General Water, empresa que implanta e opera desde a captação da água até o tratamento dos efluentes para reúso e descarte, explica que o reúso pode ser feito de diversas maneiras, das mais simples às mais sofisticadas. As estratégias mais comuns e difundidas são o reúso de efluentes industriais (cujo tratamento variará conforme a caracterização do efluente), o reúso de esgoto doméstico ou águas negras e o reúso de águas cinza.

“A General Water trabalha com sistemas de tratamento de esgoto doméstico e efluentes industriais e a água de reúso proveniente dos nossos sistemas é destinada aos mais variados usos, como lavagem de pisos, irrigação, descargas de vasos sanitários e mictórios e processos industriais. Posso destacar, inclusive, o desenvolvimento de um sistema no Shopping Iguatemi Campinas que reduz a temperatura interna do Shopping através da aspersão controlada de água de reúso na cobertura do complexo.
Em virtude de condições de escassez extrema, alguns países do mundo, como Israel, Cingapura e Namíbia já fazem o reúso direto de esgoto para fins potáveis”, enfatiza Fernando.

O gerente explica também que existem diversos tipos de tecnologia, cuja escolha deve ser baseada na qualidade do efluente a ser tratado e na qualidade requerida para a água de reúso. Para a produção de água de reúso a partir do tratamento do esgoto doméstico posso destacar o sistema MBR, que combina um reator biológico de lodos ativados com membranas de ultrafiltração. Trata-se da mais moderna tecnologia para tratamento de esgoto existente. Dentro da tecnologia de MBR, a General Water trabalha tanto com membranas tubulares, quanto com membranas de placas planas, buscando sempre adequar os projetos às necessidades e particularidades de cada cliente.


“A demanda por soluções sustentáveis vem crescendo exponencialmente, o que faz com que o mercado de reúso também se beneficie deste crescimento. Essa tendência é muito interessante para todos nós, seres humanos, pois o setor, além de gerar empregos e desenvolvimento, traz benefícios ambientais muito valiosos para a sociedade”, ressalta Fernando.


Por meio da divisão de negócios Water & Process Solutions, a Dow oferece um amplo portfólio com as mais modernas tecnologias para tratamento e reúso de água: osmose reversa, ultrafiltração e em resinas iônicas. Tais soluções podem ser utilizadas em diversas aplicações como em água industrial, na área farmacêutica, em geração de energia, dessanilização, tratamento de efluentes e reutilização, entre outras.

De acordo com Flávia Costa, representante da Dow, a osmose reversa é utilizada em processos de purificação de água por meio da remoção de sais e outras impurezas. Além desta aplicação, a tecnologia também está sendo utilizada em processos industriais devido ao seu desempenho e custo-benefício. Esta tecnologia também é indicada para locais com alto índice de salinidade, em que há muita contaminação orgânica. “Seja para dessalinização de água do mar ou para aplicações tradicionais como desmineralização de água para caldeiras, torres de resfriamento e reúso em processos industriais, o mercado de osmose reversa está em franca expansão”, completa Flávia.

A ultrafiltração é um processo de purificação impulsionado por pressão no qual a água e substâncias de baixo peso molecular penetram por uma membrana e as partículas, coloides e macromoléculas são rejeitadas. O fluxo através da membrana semipermeável se dá por meio de uma diferença de pressão entre as paredes internas e externas da estrutura da membrana.

No caso das resinas de troca iônica, elas trabalham com o tratamento primário de água de alimentação de caldeiras. Possuem sua estrutura baseada em um copolímero de Estireno e Divinilbenzeno, o qual oferece uma série de vantagens em termos de capacidade e estabilidade. A sua porosidade única e alta estabilidade térmica garante a mais completa remoção de compostos orgânicos durante o processo de tratamento de água.

“O grande diferencial está no seu tamanho de partícula uniforme. Por não apresentarem grandes partículas, possuem uma maior área superficial de contato por unidade de volume resultando em uma melhor cinética de troca, menor consumo de regenerante e águas de lavagem”, completa Flávia.

A Cetrel, empresa criada com a atribuição inicial de tratar os efluentes líquidos e dispor os resíduos sólidos gerados pelas indústrias do Polo, atualmente é responsável pelo tratamento, disposição final dos efluentes, resíduos industriais, bem como pelo monitoramento ambiental em áreas de influência de complexos industriais. Entre suas concepções está o projeto Água Viva. Trata-se da implantação de um novo sistema de reúso de água no Complexo Industrial de Camaçari, na Bahia.


Eduardo Pedroza, gerente de negócios da Cetrel, explica que a tecnologia utilizada nesse sistema trabalha com sensores que medem em tempo real a qualidade do efluente. A partir desse monitoramento é possível identificar se o efluente deve ser destinado ao tratamento de reúso de água ou não. “O segredo do reúso de água esta antes do tratamento, esta no processo de seleção dos efluentes e esse sistema seleciona efluentes industriais com menor índice de poluentes, que antes eram descartados”, explica.

Ainda de acordo com Eduardo, a grande inovação não é o tratamento, por que quando se tem água de qualidade ruim acaba se investindo muito no tratamento para obter uma água de qualidade boa, gerando assim um custo alto. A qualidade do material requer a utilização de poucos componentes químicos no tratamento, o que diminui o custo e reduz o tempo gasto no processo.

A Braskem, primeira empresa atendida pelo projeto, irá economizar 4 bilhões de litros/ano no processo industrial, quantia equivalente ao consumo médio diário de uma cidade com até 150 mil habitantes. Em anos chuvosos, a economia pode chegar a 7 bilhões de litro/ano. Com a produção de água de reúso haverá a redução de 66% do gasto com energia elétrica em relação ao que era antes necessário para o tratamento dos efluentes e a captação e produção de 1m3 de água para uso industrial.


“É um projeto economicamente e ambientalmente viável e vantajoso. Acredito que as empresas cada vez mais vão procurar uma tecnologia limpa, ou seja, aquela que gera menos resíduo. A água de reúso contribui para sustentabilidade, a indústria vai deixar de explorar águas de reservatórios, rios, etc, além de economizar financeiramente, pois seu custo é mais barato”, explica Eduardo.

Ricardo Fittipaldi, representante da H2 Life, empresa especializada em criar soluções tecnológicas ligadas à água, resalta que o reúso é uma medida de conservação de água e tem grande aplicação em diversas atividades, sobretudo aquelas que demandam grandes volumes de água e não necessitam de água de qualidade elevada quando comparado aos padrões de potabilidade. Como exemplo, o representante cita o reúso industrial em torres de resfriamentos e o reúso de esgoto tratado para descarga em bacia sanitária.

“Para implementação da prática de reúso existe, atualmente, uma vasta gama de tecnologias de tratamento de efluentes, desde uma simples filtração até processos avançados. Porém, cabe destacar que os processos de separação por membranas tem sido considerado como elementos chaves na viabilização do reúso de água, sobretudo pela elevada qualidade e estabilidade do efluente produzido”, destaca Ricardo.

Contato das empresas:

AcquaBrasilis: www.acquabrasilis.com.br
Cetrel: www.cetrel.com.br
Dow: www.dow.com
General Water: www.generalwater.com.br
H2 Life: www.h2life.com.br
Veolia Water Brasil: www.veoliawaterst.com.br

Fonte: Revista TAE
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